O mercado do boi gordo começou 2026 dando sinais claros de mudança. Depois de semanas de preços travados, algumas praças registraram negócios chegando a R$ 324 por arroba, indicando uma reação pontual, mas significativa. Essa movimentação não ocorre por acaso: ela reflete um conjunto de fatores que vão desde escalas de abate mais curtas até ajustes no comércio internacional, especialmente após as novas regras impostas por China e México.
Escalas apertadas e pouca oferta impulsionam os preços
Um dos principais motores dessa valorização é a dificuldade dos frigoríficos em alongar suas escalas. Em várias regiões, as plantas operam com programação curta, resultado direto da baixa oferta de animais terminados exclusivamente a pasto, algo comum no início do ano. Com menos boi pronto disponível, a indústria — principalmente os frigoríficos menores — passou a disputar mais ativamente as boiadas, o que abriu espaço para reajustes positivos.
Esse cenário, porém, não é uniforme. Enquanto estados como São Paulo mantêm preços acima de R$ 320/@, outras regiões, como o Mato Grosso, ainda enfrentam maior pressão devido à oferta mais abundante de animais, conforme mostram as cotações regionais.
Consumo interno mais moderado mantém o atacado estável
No atacado, os preços da carne bovina seguem relativamente estáveis. Após o período de festas, o consumo tende a desacelerar, com o varejo priorizando cortes mais baratos. Mesmo assim, não houve queda significativa nos valores, o que ajuda a sustentar a arroba neste início de ano.
Essa estabilidade no consumo interno explica por que a alta da arroba, apesar de real, ainda é limitada e concentrada em regiões específicas.
China muda regras, mas continua comprando carne brasileira
No mercado externo, o grande tema do momento é a nova política de salvaguarda da China, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026. O país estabeleceu cotas anuais por fornecedor e determinou uma tarifa adicional de 55% sobre volumes que ultrapassarem o limite permitido. Para o Brasil, a cota válida para 2026 é de 1,106 milhão de toneladas, com previsão de aumento gradual até 2028.
Apesar da preocupação inicial, as compras chinesas não pararam. Pelo contrário: importadores voltaram ao mercado pagando mais por determinados cortes, como o dianteiro desossado, reforçando a importância do país para o escoamento da produção brasileira.
Vale lembrar que a China absorveu cerca de 1,6 milhão de toneladas de carne bovina brasileira em 2025, o que mostra o tamanho da dependência do mercado asiático.
México ganha espaço como destino alternativo
Enquanto a China ajusta suas regras, o México surge como um importante ponto de apoio para as exportações brasileiras. O país estabeleceu uma cota de 70 mil toneladas sem tarifa, aplicando imposto de 20% sobre volumes excedentes. Mesmo assim, o México tem ampliado suas compras e ajudado a equilibrar o fluxo de exportações.
Esse redirecionamento parcial das vendas externas contribui para evitar pressão negativa sobre a arroba, mesmo diante das novas limitações impostas pelos chineses.
Mercado firme, mas ainda pedindo cautela
Apesar da alta pontual para R$ 324/@, analistas avaliam que ainda não há base sólida para uma escalada mais forte no curtíssimo prazo. Para que isso aconteça, seria necessário um novo impulso — seja por maior demanda interna, seja por um avanço ainda mais robusto das exportações.
Por outro lado, o conjunto atual de fatores — oferta enxuta, escalas curtas e exportações ativas — cria um ambiente de sustentação para os preços, reduzindo o risco de quedas bruscas.
Conclusão
O início de 2026 traz um sinal positivo para o pecuarista: a arroba voltou a reagir. Mesmo em um cenário de incertezas no comércio internacional, o mercado brasileiro mostra capacidade de adaptação, redistribuindo volumes e mantendo o equilíbrio entre oferta e demanda.
Com escalas apertadas, consumo interno estável e exportações ajustadas às novas regras, o produtor entra no ano com mais fôlego — mas também com a necessidade de acompanhar de perto os desdobramentos das políticas chinesas e mexicanas, que seguirão influenciando o mercado ao longo dos próximos meses.




